Projetos pedagógicos na educação municipal fortalecem o orgulho racial e ajudam estudantes a reconhecerem nos cabelos crespos símbolos de história, autoestima e resistência
Cabelos crespos não são apenas uma questão de aparência. Eles carregam histórias, culturas e uma forte ligação com a identidade da população negra. Para muitas pessoas pretas, assumir os fios naturais é um ato de afirmação e orgulho. Ainda assim, o preconceito persiste: piadas, estigmas e discriminações continuam a atingir quem escolhe exibir seus cachos com liberdade e autenticidade.
Não são todos os que conseguem enfrentar o preconceito e optam por alisar as madeixas. Pensando em como ensinar os adolescentes a lidar com esse tipo de conflito, assim como valorizar a história e a cultura afro, o professor de matemática Wilson Queiroz, da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Oziel Alves Pereira, no Parque Oziel, desenvolve o projeto Africanidades.
“Esse projeto não é apenas uma atividade da escola, é um verdadeiro movimento de valorização, de resgate e de fortalecimento da nossa identidade enquanto pessoas negras, descendentes de um povo com uma história de luta, resistência, beleza e potência”, afirma o estagiário do curso de pedagogia que atua na escola, Vagner de Sousa Serra.
Parte desses estudantes já estão resolvidos com a questão dos fios enrolados e volumosos. “Cabelo crespo é como se fosse uma coroa. Eu acredito que quem tem cabelo crespo tem tudo de bom. Na minha casa sempre aprendi que ninguém pode tocar no meu cabelo, que ele é raro e eu levo essa filosofia muito a sério”, conta a estudante de 14 anos Eydi Kyara Dias Borges.
“Foi na escola que aprendi que o nosso cabelo não é ‘ruim’, não é ‘feio’, não precisa ser escondido, alisado ou negado. Aprender sobre os diferentes tipos de cabelo afro, sobre os penteados que carregam significados históricos, foi algo que me marcou profundamente. Hoje eu carrego minha cor, meu cabelo e minha história com orgulho, e isso se deve, em grande parte, ao que aprendi dentro da escola”, completa Vagner ao se referir à Emef Oziel.
Crédito: Fernanda Sunega

Vagner estudou na Emef Oziel Alves Pereira e hoje atua como estagiário no projeto Africanidades, desenvolvido na escola
Além da estética
A Escola Municipal de Ensino Fundamental Raul Pila, no Jardim Flamboyant, é outra escola que trabalha de forma interdisciplinar as relações étnicos-raciais (ERER). Lá, os alunos também aprenderam que falar sobre os cabelos crespos vai além de uma questão estética.
“Como uma garota preta, como minha mãe costuma dizer, faço parte de uma geração onde o racismo não representa um problema para as nossas escolhas. Só que eu vejo muitas meninas sofrendo ataques por conta do tom da pele ou da textura do cabelo ou penteado”, diz Helen Horácio, 14 anos, aluna da Emef Raul Pilla.
Por mais que a sociedade tenha evoluído quando o assunto é preconceito, o cenário ainda está longe do ideal. “Por ter cabelos crespos eu já passei por muitas coisas bem desconfortáveis, como ter de responder o porquê eu aliso meu cabelo, porque eu corto ou até se dá muito trabalho para cuidar”, conta Eydi.
Também aluna da Emef Oziel, Juliana Sampaio, de 14 anos, conta que enfrentou algumas dificuldades por conta do cabelo. “A minha transição capilar foi muito difícil para mim porque eu sofri muito bullying. Os meus colegas falavam: ‘vai cabelo duro’, ‘vai cabelo de bombril’… E eu ficava muito triste”.
Hoje, Juliana se assumiu crespa e afirma que se sente bem com o novo visual. “O meu cabelo está lindo, maravilhoso. Os colegas não falam mais nada, ou melhor, falam algumas coisas sim, mas não como antes. Eu agora sou uma menina bonita com meu cabelo crespo”, comemora.
Crédito: Fernanda Sunega

Para Eydi Kyara Dias Borges, o cabelo crespo é como uma “coroa”
Identidade
Para o estudante da Emef Raul Pilla Juliano Henrique de Sousa Cardoso, de 11 anos, falar do cabelo é dar voz à sua identidade. “O meu cabelo é cacheado. Quando eu arrumo, ele fica bem black e eu curto demais o meu black power. Ele é muito importante para mim e aumenta muito minha autoestima”, relata.
Segundo o professor Wilson, o cabelo crespo precisa ser considerado no processo de aprendizagem. “Cada fio pode e deve ser entendido como parte da humanidade negra. Pedagogicamente, ele se impõe como elemento importante no cotidiano escolar. Isso exige ações específicas e conhecimento por parte dos professores. É preciso incluir o tema no repertório pedagógico, favorecendo a aprendizagem e fazendo da escola um espaço de valorização e diversidade”, reflete Wilson.
Crédito: Fernanda Sunega

Juliana Sampaio conta que sofreu bullying durante sua transição capilar


